Este é um novo espaço de divulgação sobre a escrita e a sua revisão.
escrevi este e-book em 2007, cresci muito durante o processo. hoje tenho uma visão diferente dos acontecimentos mas, por respeito ao passado, agora que aprendi a publicar os pdf na net, divulgo-o aqui :)
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como uma prima ballerina, recebo um ramo de flores, aromas e cores a encerrar uma tarde de reencontros e amizade. tanta alegria. uma tarde de encantamentos e magia nas palavras de António Oliveira. na música de Carlos Andrade. no dizer tão vívido de Luís Beirão. tudo possível graças à aposta de Jorge Castelo Branco em publicar um dos meus sonhos. no final de algumas tempestades uma bonança de aconchegos. entre amigos. de tantas paragens. e a escrita continua... aqui.
"Não sou poeta!" disse-me a Ana Eugénio no dia em que a conheci. Uma afirmação quase seca, a afirmar uma convicção que não me atrevi a contrariar! Ainda só tinha lido duas ou três páginas do texto que agora têm aí para vosso desfrute e consolo. Depois acabei de o ler e continuei na minha - ela é poesia! Não é poeta quem quer, e sei-o por experiências próprias - vezes sem conta repetidas, e sempre desconseguidas - mas apenas quem tem a capacidade de reviver e transmitir as imagens felizes que lhe fazem a vida! É nesse devaneio de alma, sustentado pelo sentir e viver todas as pequenas coisas que enchem os dias, que nascem as imagens/essência da poesia. É por isso que continuo na minha - a Ana Eugénio é poesia! E quem ler esta "Sagração dos Dias" vai encontrar aquele devaneio, ou melhor, aquelas imagens que se guardam desde os tempos em que todos os dias eram felizes. E assim, nas primeiras páginas deste livro de uma Ana Eugénio "que não é poeta!", perpassam as imagens de uma infância em que o amor é inocência e é tranquilidade, e é os cheiros de uma casa de viverem todos. Casa que depois se transforma num lugar mágico, cheio pela chuva. Uma casa magia de silêncios solidários e plenos, de reencontros e celebrações, da quase violência dos abraços, mas sinal da plenitude da paz interior. Paz sem a qual não se pode habitar, nunca, a brisa do descanso à beira do mar, onde o ar nos desacelera na quietude da rebentação e no riso das crianças! Depois - e a meu ver a segunda parte deste livro - as palavras "fazem-nos" as imagens luminosas e simples de um piquenique, de um pintor de céus, de um homem tocador de sinos para ajudar o dia a nascer, e do desatino de um Outono a voar caminhos de sonhos, e sorrisos e esperança. E vivem lá, nesses caminhos, personagens outras e puras, como o Leonardo, o Clarêncio e a Clariana, o Miguel, o Eduardo, o Leopoldo e a Leolinda, a Mariana e o Daniel, sob o comando de um Capitão Felisbelo que aprendeu, das borboletas, as manhas de criar o vento! É claro, e é por isso ainda mais evidente, que não estamos aqui e que não gostamos da Ana Eugénio, da mesma maneira que também é claro e evidente que "ela não é poeta!".
nota: para quem chegar aqui via destaque do SAPO :)
o blog é composto por excertos do livro. os vossos comentários são bem-vindos :)
no próximo dia 25 de Julho (Sábado), pelas 17h30, realiza-se na Index, no Porto, a apresentação do livro: Sagração do Dia. a entrada é livre. estão todos convidados :)
P.V.P. 10€ (45 páginas)
a obra Sagração do Dia será apresentada por António M. Oliveira, jornalista profissional desde 1977, licenciado em Jornalismo e Mestre em Ciências da Comunicação, monitor e professor do Ensino Superior na área de Ciências da Comunicação desde 1992. (lugar e hora por designar)
há dez anos que Clarêncio toca o sino da alvorada. todos os dias. às seis da manhã. em ponto. o eco das badaladas dá início às revoadas. a aldeia recebe o novo dia. prepara a lavoura. entre o cintilar das estrelas e os primeiros laivos de sol. ainda a vida se estende ao borralho e já Clarêncio sente o orvalho. adianta-se ao amanhecer. dá de comer aos cães. deixa as ovelhas no pasto. e segue para a aldeia. seguro do caminho. ciente da responsabilidade. do seu encargo. todos os dias. transporta uma pequena bolsa de linho. percorre os campos. entra no adro da igreja. sobe a escadaria que dá para a torre. e anuncia o dia. há dez anos que Clariana o espera ao pequeno-almoço. ansiosa pela doçura que o linho encobre.
hoje o vento anda à solta. o céu desmaiado anuncia um dia outonal. crianças correm pela rua. o sorriso largo. os braços estendidos com as mãos abertas. gritam: estou a empurrar o vento. e o vento solta gargalhadas. poderosas. que nos reduzem à insignificância de uma pluma. vagas de maresia brincam no meu cabelo. quase sinto os pés flutuar, enlevada pelo vento. o Outono acontece em pleno Verão. vira o dia de pernas para o ar. tem um aconchego de infância. dias em que a casa cheira a bolos, as vozes se aquecem em chávenas de chá e a cantilena do vento entre as persianas nos adormece protegidas.
há dias assim. sossegados. em que a casa dorme. sonhos cor-de-rosa. cores suaves. e o mundo completo. eu e tu. a caminhar pelo tempo. sossegados. a casa descansa. sonhos de calmaria. brisas suaves. e eu voo sobre a água. e tu andas sobre o mar. uma redundância. perfeita. há dias assim. alquimistas. em que a vida desperta. momentos cor-de-rosa. multicolores. e o universo completo. eu e tu. a crescer pelo tempo. alquimistas. a vida descansa. momentos de calmaria. memórias suaves. e eu sou a luz. e tu és o sol. uma redundância. perfeita. há dias assim. divinos. em que o amor se reconhece. vidas cor-de-rosa. multidimensionais. e a criação completa. eu e tu. intemporais. divinos. o amor descansa. vidas de calmaria. instantes suaves. e eu existo. e tu existes. uma redundância. perfeita. há dias assim…
na calmaria vespertina. um vento morno e sorrateiro vem cheirar a toalha estendida na erva, petiscar algumas migalhas de conluio com as formigas. o céu acrescenta um sorriso límpido ao dia. enquanto as nuvens andam ao longe no mar. canteiros selvagens de margaridas e papoilas são como breves pinceladas entre as searas. o zumbir esporádico das abelhas realça a mansidão quente da tarde. há sandálias e brinquedos pelo campo. os pés correm descalços. o riso cristalino eleva-se no ar. rodopia. espanta o canto das cigarras. brinca com o chilrear dos pássaros. o riso denso, que dá a cada instante em que acontece o tamanho de uma vida, surpreende a brisa, poliniza as flores. no aconchego do sol o riso anda à solta.
a seguir a cada tempestade, Rafael sobe ao velho farol para comungar o nascer de um novo dia e observar a fusão do azul do céu no mar. diante do horizonte imenso, o sentimento de pertença é avassalador. Rafael inspira profundamente e saúda a bonança. o som da rebentação das ondas ecoa amortecido pelo distanciamento no interior da torre erodida pelo tempo.
Beatriz segue-o degrau a degrau. a sombra da noite esmorece ténue perante o despertar envolvente do sol. sem pedir licença ao vento, linhas multicolores anunciam o renascer da vida. Beatriz dá água às flores que colheu durante a viagem e, lado a lado, homem e mulher observam o mundo como quem saboreia cuidadosamente uma caixa de chocolates.
da torre exponente, vêem a silhueta de uma criança a desenhar arabescos com uma pena na areia da manhã. o orvalho ainda tem o aroma da tempestade e é conselheiro sobre a vulnerabilidade da vida e da morte. mas a magnificência da tapeçaria de cores ao nascer do dia consegue afastar qualquer ideia de obstrução à calmaria.
altaneiros, vêem um corpo a emergir da água num sobressalto, a friccionar os braços até ao cotovelo, e sorriem perante a loucura de um mergulho tão friorento. divertida e rosácea, Beatriz regressa às suas flores. com método, limpa o lodo das raízes, enquanto Rafael se distrai a vasculhar pedacinhos da cal velha nas paredes que pedem uma nova pintura.
neste casulo de afectos, a conversa é silenciosa. o casal nefelibata desconhece o inferno do ostracismo pois adivinha as palavras um do outro em cada expressão e movimento corporal. o dia acontece variável por todo o país. ao entardecer, no vertical farol, o luar vem inundar os abraços. e o vapor do amor espraia-se suavemente pela brisa.
publicado nesta edição :)